Izabela Dolabela transforma gastronomia em negócios com identidade
Izabela Dolabela compartilha com a Sparking Food sua visão sobre it.kitchen, Lowko, Ibá e Artse, explicando gestão, posicionamento e oportunidades na gastronomia.
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Uma boa ideia gastronômica pode nascer do domínio de uma receita. Transformá-la em negócio exige algo mais: compreender o consumidor, desenhar uma marca, sustentar a operação e reconhecer qual valor pode ser entregue de diferentes maneiras. É nesse encontro que Izabela Dolabela construiu sua visão de empreendedorismo.
Formada em Direito e Gastronomia, com passagem pela confeitaria e por diferentes cozinhas, a chef desenvolveu atuação em projetos de perfis distintos, entre eles it.kitchen, Lowko Sorvetes, Compotas Ibá e Artse Vinhos. Em entrevista concedida à Sparking Food, ela explica como une repertório culinário, observação de mercado, identidade de marca e decisões de gestão.
Mais do que multiplicar produtos, seu interesse está em compreender a razão de existir de cada negócio. Ao longo de dez respostas, Izabela aborda o caminho entre a intuição criativa e a viabilidade econômica, a importância das equipes e as oportunidades que surgem quando a gastronomia deixa de ser vista apenas como um restaurante.
- O que é?
- Uma trajetória empreendedora que conecta gastronomia a projetos como it.kitchen, Lowko, Ibá e Artse.
- Quem conduz?
- Izabela Dolabela, chef e empreendedora com atuação em experiências, produtos, marcas e negócios gastronômicos.
- Onde atua?
- A partir de São Paulo, em negócios e projetos gastronômicos de perfis diferentes.
- Qual é a ideia central?
- Uma boa ideia só vira negócio quando público, identidade, produto e operação fazem sentido juntos.
A cozinha como ponto de partida, o negócio como horizonte
Izabela diz que seu olhar empreendedor nasceu junto com sua relação com a cozinha. Desde cedo, porém, não associava a gastronomia somente ao preparo dos alimentos. O produto, a experiência, o comportamento das pessoas e o universo das marcas também despertavam seu interesse.
A formação em Direito e Gastronomia, somada às experiências em confeitaria e em cozinhas de diferentes culturas, ampliou essa perspectiva. Em vez de concentrar seu conhecimento em um único formato, começou a perceber possibilidades de transformá-lo em produtos, serviços e experiências. É a partir dessa leitura que ela descreve sua atuação nos negócios: cada projeto nasce de uma inquietação e da busca por algo que tenha valor reconhecido pelo consumidor.
Hoje, vejo a gastronomia muito mais como uma plataforma de negócios do que como uma atividade isolada.
A frase organiza o fio condutor de sua trajetória. Cozinhar é uma competência central, mas o empreendimento depende também de linguagem, operação, mercado, relacionamento e capacidade de execução.
A oportunidade precisa ter uma razão para existir
Antes de investir em uma ideia, Izabela começa por uma condição pessoal: precisa acreditar genuinamente no projeto. Essa convicção, contudo, é apenas o primeiro passo. Em seguida, avalia se existe demanda, quem é o consumidor, qual diferencial pode ser construído, quais margens seriam possíveis e se o modelo tem viabilidade operacional.
A pergunta que orienta sua análise é simples e exigente: existe uma razão real para o negócio existir? Em mercados competitivos, oferecer um bom produto é importante, mas não responde sozinho por que o público deveria escolher aquela proposta.
Um bom produto pode vender, mas uma marca forte cria relacionamento e permanece.
Para a chef, paixão ajuda a começar; a continuidade exige um modelo financeiramente saudável. A decisão de empreender, portanto, combina desejo, oportunidade percebida, posicionamento e disciplina econômica.
Quatro negócios, quatro formas de construir identidade
As marcas associadas à trajetória de Izabela mostram como a gastronomia pode assumir linguagens distintas. O it.kitchen trabalha a comida como experiência, inclusive em encontros de grupos e empresas. A Lowko aparece em sua trajetória ligada ao desenvolvimento de sorvetes e à leitura de um consumidor atento à conveniência. A Compotas Ibá, que posteriormente passou a se apresentar como Ibá Brasil, construiu uma proposta de produtos de despensa com embalagens e aplicações próprias. A Artse Vinhos ocupa outro território, o das bebidas e das ocasiões de consumo.
Izabela não propõe simplesmente repetir sua assinatura visual nas quatro frentes. Segundo ela, cada marca precisa ter personalidade, propósito e voz próprios. O processo começa pelo público e pela história que se deseja contar; depois, articula produto, linguagem, embalagem, experiência, preço e posicionamento.
Sua assinatura empreendedora, como ela define, aparece mais na forma de pensar: qualidade, criatividade, escolha de ingredientes e experiências coerentes. Isso permite que os negócios compartilhem critérios sem precisarem parecer iguais.

O prato precisa conversar com a planilha
Um dos aprendizados que Izabela considera mais relevantes veio da necessidade de conciliar o olhar da chef com as exigências de uma empresa. Ao criar uma experiência ou desenvolver um produto, ela passou a avaliar simultaneamente sabor, apresentação, custo, logística, equipe, preço de venda, margem e capacidade de execução.
A lógica é prática: uma proposta pode ser excelente no campo gastronômico e, ainda assim, encontrar dificuldades para ser repetida com eficiência ou vendida por um preço adequado ao seu público. Por outro lado, reduzir todas as escolhas à planilha também pode esvaziar o valor da experiência.
O equilíbrio está em aproximar criação e viabilidade, preservando o que torna a proposta desejável enquanto se organizam os recursos necessários para entregá-la.
A decisão de vender experiências, não apenas pratos
Ao relembrar uma escolha estratégica decisiva, Izabela aponta para a descoberta de que não precisava limitar seu trabalho ao restaurante tradicional. No it.kitchen, encontrou um formato conectado à criação de momentos em torno da comida, com grupos fechados, atividades corporativas e experiências que têm o preparo como ponto de encontro.
Essa mudança ampliou as possibilidades comerciais de seu repertório. O valor entregue pode estar na convivência, na aprendizagem, no trabalho em equipe ou na experiência compartilhada, e não exclusivamente no prato final.
Às vezes, a grande decisão estratégica não é fazer mais daquilo que você já faz, mas entender qual é o verdadeiro valor que você entrega e encontrar novas formas de comercializá-lo.
A chef acrescenta outra disciplina a esse processo: saber recusar. Nem toda oportunidade se encaixa na estratégia de vida, na capacidade operacional ou na identidade que se pretende construir. Para ela, crescer também é escolher melhor.

Observar o consumidor além das tendências
A leitura de consumo aparece como uma prática constante na forma como Izabela pensa negócios. Ela observa o que as pessoas comem, compram no supermercado, compartilham nas redes, servem aos amigos e esperam de suas experiências fora de casa.
Seu objetivo, porém, não é apenas seguir uma tendência visível. Ela busca compreender o comportamento que existe por trás dela. A procura por praticidade, por exemplo, pode coexistir com uma exigência maior de qualidade, sabor, ingredientes e apresentação. Esse encontro entre conveniência e experiência cria possibilidades para formatos e produtos diferentes.
O desenvolvimento de produtos associado à Lowko, às propostas da Ibá e às colaborações entre marcas ajuda a ilustrar essa diversidade de ocasiões de consumo, mas a entrevista não atribui resultados financeiros específicos a essas iniciativas. O ponto principal é o método descrito por Izabela: observar, compreender e responder ao que as pessoas valorizam.
Uma equipe precisa compreender o porquê
Na gestão de pessoas, Izabela defende que uma empresa não pode depender apenas do olhar de quem a fundou. Produto, conceito e experiência podem nascer de uma visão individual, mas são as equipes que tornam a proposta concreta a cada dia.
Quando uma equipe compreende o posicionamento da marca, ela consegue tomar decisões melhores mesmo quando o dono não está presente.
Para que isso aconteça, ela valoriza autonomia, treinamento, comunicação e clareza. Os colaboradores precisam compreender não só as tarefas, mas os valores que orientam escolhas diante de clientes, fornecedores e parceiros. Nesse modelo, cultura empresarial não é apenas um conjunto de palavras: está presente no tratamento dispensado às pessoas e nas decisões cotidianas.

Produto, posicionamento, gestão e execução
Ao responder o que torna uma ideia economicamente sustentável, Izabela organiza seu raciocínio em quatro pilares. O primeiro é produto: qualidade e uma razão clara para existir. O segundo é posicionamento: definir a quem a marca se dirige e por que merece ser escolhida.
O terceiro é gestão: custos, margens, fluxo de caixa, estoque, processos, indicadores e pessoas. O quarto é execução: a capacidade de repetir uma boa proposta de forma consistente. Para quem vem da cozinha, a mensagem é especialmente útil, pois torna visíveis competências empresariais que precisam acompanhar o talento culinário.
A chef também valoriza começar de maneira consciente. Testar uma proposta, ouvir o consumidor, corrigir e só depois ampliar a operação pode ser mais apropriado do que investir muito antes de validar a demanda. O crescimento, nessa leitura, depende de aprendizagem e repetibilidade.
Empreender na gastronomia é transformar criatividade em processo sem deixar que o processo mate a criatividade.
O conselho para chefs que desejam empreender
Izabela diferencia talento na cozinha e capacidade de administrar uma empresa. São habilidades distintas e, em sua visão, as duas precisam ser desenvolvidas. Cozinhar bem é o ponto de partida, mas não garante a sustentabilidade de um restaurante, de uma marca de produto ou de uma experiência gastronômica.
Sua recomendação envolve aprender a trabalhar com números, pessoas, marketing, vendas, negociação, processos e estratégia. Também inclui reconhecer a importância de profissionais complementares: empreender não exige dominar sozinho todas as áreas.
Antes de abrir um negócio, ela sugere identificar a necessidade que será atendida, quem é o público e por que esse consumidor escolheria a nova oferta. É uma abordagem que desloca a atenção da vontade de abrir uma operação para a utilidade e a diferenciação daquilo que ela pretende entregar.
O futuro que une experiência, conveniência e bem-estar
O mercado que mais desperta o interesse de Izabela está na aproximação entre gastronomia, experiência, conveniência e bem-estar. Em sua visão, os consumidores continuarão buscando soluções práticas, com qualidade, origem, sabor e identidade.
Ela vê oportunidades em propostas ligadas à alimentação baseada em vegetais, produtos naturais e funcionais e novos modos de consumo. Também aposta na gastronomia como experiência: momentos para aprender, conviver, compartilhar e criar memórias.
Seu horizonte profissional inclui possibilidades para chefs em desenvolvimento de produtos, conteúdo, educação, experiências corporativas, marcas próprias e colaborações entre negócios. A cozinha permanece central, mas o espaço de atuação do profissional pode ser maior do que o restaurante.
O negócio por trás do prato começa na decisão
As dez respostas de Izabela apontam para uma tese consistente: gastronomia e empreendedorismo se fortalecem quando a criação é acompanhada de uma leitura clara do consumidor, de uma proposta de valor reconhecível e de capacidade de execução.
Os projetos que integram sua trajetória não representam uma fórmula única. Cada um exige escolhas próprias de público, identidade, produto e operação. O que os aproxima é a intenção de transformar repertório gastronômico em experiências e marcas com uma razão de existir.
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