HŪE: em Lisboa, um café descobre o valor de ouvir o bairro
Em Lisboa, o HŪE mostra como identidade, escuta do bairro e decisões de operação se encontram na construção de um café, wine bar e boutique.
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Uma conversa com uma vizinha ajudou a mudar o cardápio do HŪE poucos dias depois de sua abertura em Lisboa.
O café havia sido concebido para reunir diferentes experiências: matcha, cafés, brunch, vinhos portugueses, arte e uma pequena boutique de objetos selecionados. A proposta era criar um ambiente de permanência, onde as pessoas pudessem desacelerar, encontrar amigos, ler ou simplesmente aproveitar algum tempo sozinhas.
Havia intenção por trás de cada detalhe. Mas os primeiros dias de funcionamento mostraram que uma identidade cuidadosamente planejada também precisa encontrar espaço na rotina de quem vive ao redor.
Depois do fim de semana de inauguração, uma moradora do bairro compartilhou uma observação com Tom, um dos fundadores. O cardápio oferecia propostas para um brunch, mas ainda não atendia plenamente quem desejava tomar um expresso rápido no balcão ou fazer um pequeno-almoço simples antes do trabalho.
Tom ouviu, procurou novos fornecedores e introduziu uma opção mais acessível para o café da manhã. Os preços dos cafés tradicionais também foram reduzidos.
O ajuste não significou abandonar a proposta original. Pelo contrário, aproximou o HŪE de uma de suas ambições mais importantes: fazer parte da vida cotidiana do bairro.
É justamente nessa relação entre identidade, escuta e adaptação que a história ganha interesse para quem administra negócios gastronômicos.
O HŪE ainda está nos primeiros passos. Seus fundadores não apresentam uma fórmula consolidada de crescimento ou resultados financeiros definitivos. O que compartilham é o processo de construir uma operação a partir de convicções pessoais, experiências profissionais e decisões que precisam funcionar na prática.
Na conversa exclusiva com o LÁ FORA., editorial internacional da Sparking Food Magazine, os fundadores abrem os bastidores de um projeto que procura transformar hospitalidade em relacionamento e criatividade em um negócio economicamente sustentável.
- O que é?
- Café, wine bar e boutique de design em Lisboa, com matcha, café, brunch, vinhos e objetos selecionados.
- Quem criou?
- Tom e Frank, reunindo experiências de design de interiores e hospitalidade.
- Onde fica?
- Rua Luciano Cordeiro 13A, 1150-212 Lisboa, Portugal.
- Qual é a ideia central?
- Construir uma casa com identidade própria sem deixar de escutar a rotina e as necessidades do bairro.
Duas trajetórias, uma ideia de hospitalidade
Tom nasceu na Polônia e construiu uma trajetória ligada à arte, à estética e ao design de interiores. Viveu na Suécia e na Espanha antes de chegar a Portugal. Em Estocolmo, administrou seu próprio estúdio de design.

Frank, sueco, tem experiência profissional na hospitalidade, incluindo hotéis, spas e a administração de dois cafés em Estocolmo. A criação do HŪE permitiu reunir essas experiências em um mesmo projeto.
Enquanto Tom se dedica à identidade visual, ao marketing, às relações com artistas e fornecedores e à dimensão criativa do cardápio e da boutique, Frank acompanha áreas como documentação, segurança alimentar e contabilidade. A divisão não elimina a participação dos dois nas atividades diárias, mas ajuda a dar consistência à operação.
A complementaridade aparece também no espaço físico. A arquitetura aproxima a simplicidade escandinava do acolhimento associado ao sul da Europa. Tons de areia, madeira, paredes texturizadas, iluminação suave e azulejos portugueses convivem com referências de viagens pelo Marrocos, Grécia, Países Baixos e Suécia.

No cardápio, cafés e matchas convivem com torradas artesanais de fermentação natural, preparações sazonais, bolos e cheesecake basco produzido na casa. Ao longo do dia, a oferta contempla vinhos e pequenas porções para compartilhar.
A boutique reúne peças artesanais encontradas em viagens, objetos de design, livros e produtos de marcas independentes. Nas paredes, fotografias do artista Andre Perez integram o repertório visual do espaço.
São escolhas que explicam o posicionamento do HŪE. Mas, como mostram as respostas dos fundadores, a operação exige decisões que vão muito além do ambiente.
A entrevista: dez decisões por trás do HŪE
As perguntas foram feitas por Mário de Souza. As respostas, originalmente enviadas em inglês, foram traduzidas para o português brasileiro, preservando o sentido e a primeira pessoa do relato de Tom sobre o projeto desenvolvido com Frank.
01 | A oportunidade: criar um lugar para permanecer
Mário de Souza: Antes de criar o HŪE, o que vocês perceberam no cenário de cafés e hospitalidade de Lisboa que os fez acreditar que havia espaço para algo diferente?
Tom: Nossa relação com Lisboa foi amor à primeira vista! Nós nos apaixonamos pela cultura, pelas pessoas, pela energia. Sentimos uma conexão imediata com a cidade e fomos recebidos de uma maneira muito acolhedora.
Existem muitos lugares fantásticos aqui. Para nós, o sonho era criar um espaço que transmitisse a sensação de entrar na casa de alguém. Um lugar acolhedor, confortável e inspirador, com personalidade própria.
Um espaço para aqueles momentos entre uma atividade e outra, onde você possa relaxar, permanecer por algum tempo, encontrar pessoas ou simplesmente aproveitar um momento consigo mesmo. Com um ótimo matcha, café e alguma coisa deliciosa para comer, naturalmente.
Essa sensação de estar em casa e de fazer parte de uma comunidade era o que queríamos trazer para o HŪE.
02 | Posicionamento: a identidade além do produto
Mário de Souza: Em um mercado com tantos cafés e conceitos de hospitalidade, quais decisões vocês tomaram para dar ao HŪE uma identidade própria e fazer dele mais do que outro endereço na cidade?
Tom: Frank e eu temos trajetórias bastante diferentes. Ele trabalhou com hospitalidade durante toda a vida, incluindo a administração de dois cafés em Estocolmo, além de experiências em hotéis e spas.
Minha formação está ligada à arte e ao design, e eu tinha meu próprio estúdio de design de interiores em Estocolmo. O HŪE nos deu a oportunidade de reunir esses dois mundos.
Além do café, temos uma pequena boutique de lifestyle com objetos que escolhemos pessoalmente. Há cerâmicas artesanais e peças únicas que selecionamos nos mercados de Marrakech, conjuntos japoneses para matcha, livros de arte, fotografia e gastronomia, além de produtos ecológicos de cuidados com o corpo da Ajen, incluindo opções de refil.
Escolher essas peças é algo de que gosto muito. São objetos que teríamos com prazer em nossa própria casa.
Também queremos colaborar com artistas locais, ceramistas, pintores e fotógrafos, e introduzir gradualmente aulas de cerâmica, clubes de leitura e pequenos eventos artísticos. Sempre imaginamos o HŪE como um espaço criativo onde as pessoas possam se encontrar, trocar ideias e compartilhar aquilo que fazem.
Se alguém cria algo bonito e precisa de um lugar para apresentar seu trabalho, gostaríamos muito de conversar.

03 | Público: acolher também é uma escolha de posicionamento
Mário de Souza: Para quem vocês imaginaram o HŪE? Como essa visão influenciou as decisões sobre espaço, produtos, atendimento e comunicação?
Tom: Imaginamos o HŪE para pessoas que procuram conexão, conforto e criatividade, independentemente de terem vivido em Lisboa a vida inteira ou de terem acabado de chegar. Todos são bem-vindos.
Como integrantes da comunidade LGBTQIA+, sabemos como é sentir-se excluído. Por isso, era especialmente importante criar um lugar onde as pessoas pudessem se sentir confortáveis sendo elas mesmas.
Realizar nosso primeiro evento foi um momento muito especial. Ver as pessoas conversando, rindo e se conhecendo fez com que aquela ideia se tornasse muito real.
Esse mesmo acolhimento deve existir para quem passa rapidamente para tomar um café, chega sozinho com um livro ou encontra amigos para um brunch. Isso influencia a maneira como recebemos as pessoas, a atmosfera que criamos e a variedade do que oferecemos.
Também queríamos que o HŪE nos ajudasse a fazer parte do próprio bairro. Fomos recebidos de forma muito carinhosa e já construímos amizades. Queremos continuar criando oportunidades para que pessoas que talvez nunca se encontrassem possam se conhecer.
04 | Modelo de negócio: diferentes experiências, uma operação
Mário de Souza: O HŪE reúne café, gastronomia, vinho e arte. Como vocês estruturaram essas experiências dentro de um conceito de negócio coerente e financeiramente sustentável?
Tom: Reunir essas coisas pareceu bastante natural. Amamos café, gastronomia, arte e, definitivamente, vinho! A ideia nasceu das nossas viagens e dos lugares que permaneceram na nossa memória. Queríamos reunir esses interesses de uma maneira que tivesse a nossa personalidade.

Fazer isso funcionar como negócio exige um planejamento mais cuidadoso. Servimos café da manhã, brunch e pequenas opções para o período da noite. Por isso, pensamos em como o cardápio poderia funcionar ao longo do dia.
Utilizamos um número relativamente pequeno de ingredientes em diferentes preparações. Isso nos ajuda a manter a operação administrável e a minimizar desperdícios, sem fazer o cardápio parecer limitado.
Trabalhamos com fornecedores locais e servimos vinhos portugueses. A boutique permite que os convidados levem um pouco da experiência de design para casa. Os eventos também estão se tornando uma parte importante do negócio: trazem novas pessoas, ajudam a tornar o HŪE conhecido e contribuem para o fluxo de caixa.
Ainda estamos muito no começo do processo, aprendendo como essas diferentes partes funcionam juntas na prática.

05 | Hospitalidade: o ambiente também presta serviço
Mário de Souza: Que experiência vocês desejam proporcionar aos convidados e como transformam essa visão em decisões diárias de atendimento e operação?
Tom: Gostaríamos que as pessoas se sentissem tão confortáveis quanto estariam na nossa sala de estar. Para mim, muito disso está ligado aos sentidos: aquilo que você vê, ouve, cheira e toca.
Quando desenhamos o HŪE, misturamos cores, texturas e materiais de maneira bastante intencional. Queríamos que o ambiente fosse surpreendente e familiar ao mesmo tempo, inspirador e acolhedor.
A música também é importante para nós dois, então criamos nossas próprias playlists. Todos esses detalhes contribuem para a sensação de passar algum tempo aqui.
E realmente pensamos nas pessoas que entram como nossos convidados, não como clientes. Tentamos receber cada pessoa de forma pessoal e dar tempo para que ela se acomode, sem se sentir apressada.
Estamos sempre felizes em conversar, mas também queremos que as pessoas se sintam confortáveis simplesmente aproveitando a própria companhia. Temos interesse em conhecê-las e ficamos felizes em compartilhar um pouco de nós também.

06 | Prioridades: começar menor para construir melhor
Mário de Souza: Durante a criação do HŪE, houve alguma decisão difícil em que vocês precisaram abrir mão de algo de que gostavam para proteger a identidade ou a viabilidade do negócio?
Tom: Mergulhamos nesse projeto de cabeça, pouco tempo depois de nos mudarmos para Portugal. A ideia já vinha amadurecendo havia bastante tempo, e estávamos animados para finalmente realizá-la. Sabíamos que precisaríamos aprender e nos adaptar rapidamente, embora algumas etapas tenham sido mais desafiadoras do que imaginávamos.
Atrasos nas obras e nas licenças pressionaram nosso orçamento. Tivemos que priorizar o que era essencial para abrir. A boutique começou com menos produtos do que havíamos imaginado, e decidimos não realizar a grande festa de inauguração.
É claro que isso foi frustrante. Você passa tanto tempo imaginando como tudo vai parecer e funcionar. Mas precisávamos nos permitir começar em uma escala menor.
Essas ideias continuam presentes. Estamos apenas introduzindo cada uma gradualmente. As primeiras semanas foram animadoras e encorajadoras. Ver as pessoas aproveitando o espaço torna mais fácil aceitar que nem tudo precisa acontecer ao mesmo tempo.
07 | Bastidores: uma equipe pequena precisa de clareza
Mário de Souza: Como vocês organizam equipe, fornecedores, operação diária e padrões de qualidade para garantir que a experiência imaginada aconteça todos os dias?
Tom: Começamos sendo realistas sobre aquilo que uma equipe pequena conseguiria entregar de maneira consistente. Essa é uma das razões pelas quais mantivemos o cardápio relativamente enxuto.
Acredito que uma boa comida pode ser simples quando os ingredientes são bons e existe alguma imaginação por trás.
Também era importante oferecer à nossa querida barista, Karina, um salário justo e um contrato de trabalho em tempo integral. Queremos que as pessoas que trabalham conosco se sintam seguras, confortáveis e valorizadas. Elas são uma parte muito importante da experiência dos nossos convidados.
Frank e eu também dividimos nossas responsabilidades. Ele cuida da documentação, da segurança alimentar e da parte contábil. Eu me concentro mais na imagem do HŪE, no marketing, nas relações com fornecedores e artistas e no lado criativo do cardápio e da boutique.
É claro que, em um café pequeno, todo mundo acaba fazendo um pouco de tudo! Mas ter responsabilidades claras nos ajuda a manter a organização e saber quem acompanha cada assunto.

08 | Sustentabilidade: saber o que preservar e o que ajustar
Mário de Souza: Como vocês equilibram qualidade, identidade e experiência dos convidados com a realidade financeira de administrar um novo negócio de hospitalidade?
Tom: Existem coisas das quais não queremos abrir mão: bons ingredientes, tratamento justo da equipe e uma recepção acolhedora para nossos convidados. Esses elementos são centrais para aquilo que queremos que o HŪE seja.
Outras coisas podem ser ajustadas, como o tamanho do cardápio, as quantidades que compramos ou nossos horários de funcionamento. Estamos observando os períodos de maior movimento, o que as pessoas pedem, aquilo que não vende e os pontos em que precisamos fazer mudanças.
Colocamos muito de nós nesse projeto, então é natural que tenhamos sentimentos fortes em relação a ele. Mas também precisamos estar dispostos a olhar para o que realmente acontece no dia a dia.
Às vezes, uma ideia de que você gosta muito precisa ser ajustada. Ainda estamos aprendendo a encontrar esse equilíbrio. Queremos construir um negócio que consiga nos sustentar e, ao mesmo tempo, nos permita continuar oferecendo a experiência em que acreditamos.

09 | Escuta: quando o bairro participa das decisões
Mário de Souza: Desde a abertura do HŪE, vocês descobriram algo sobre os convidados ou a operação diária que os levou a reconsiderar uma decisão original?
Tom: Sim, definitivamente! Sempre soubemos que parte do aprendizado aconteceria na prática, e nossos vizinhos nos deram uma lição muito útil logo no início.
Abrimos com um cardápio pequeno, com nossas próprias versões de torradas de fermentação natural, cafés e matchas. Estávamos muito animados com esses produtos, mas não havíamos pensado o suficiente nos momentos mais simples do cotidiano: um pequeno café da manhã antes do trabalho ou um expresso rápido no balcão.
Depois do primeiro fim de semana, uma vizinha muito simpática me deu um feedback honesto. Eu ouvi, encontrei novos fornecedores e introduzi uma opção simples e acessível de pequeno-almoço. Também reduzimos os preços dos nossos cafés tradicionais, e sinto que isso foi bem recebido.
Queremos que o HŪE tenha um lugar na vida cotidiana das pessoas, então essa foi uma mudança importante. Já estamos vendo convidados retornarem, o que nos deixa muito felizes.
Isso também me inspirou a pensar em um pequeno cardápio semanal de especiais, para que nossos frequentadores habituais tenham algo novo para experimentar.

10 | O futuro: crescer sem perder a proximidade
Mário de Souza: Quando vocês pensam no futuro do HŪE, o que significa crescer sem perder a identidade? E quais aprendizados dessa trajetória gostariam de compartilhar com outros empreendedores da hospitalidade?
Tom: Para nós, crescer significa ter uma comunidade mais forte ao redor do HŪE e um negócio capaz de nos sustentar de maneira sustentável. Gostaríamos de receber mais eventos, colaborações e ideias, mantendo a sensação pessoal que nos fez querer criar o espaço.
Este ano foi difícil para Frank e para mim. Mudar para outro país e começar um negócio traz muitos desafios, e também enfrentamos dificuldades pessoais ao longo do caminho. Colocamos nossos corações no HŪE e tivemos a sorte de receber um apoio muito bonito das pessoas ao nosso redor.
O que eu compartilharia com alguém que está começando é a importância de permanecer conectado à razão pela qual decidiu empreender, mas mantendo a disposição para ouvir e se adaptar. É algo que nós mesmos estamos aprendendo.
Ajuda muito ter clareza sobre aquilo que é importante para você, especialmente quando as coisas ficam estressantes ou não acontecem como planejado.
E encontre sua própria identidade. Já existem tantos cafés, bares e restaurantes excelentes. Pense no que você pode oferecer ao seu bairro e no que faria as pessoas ficarem felizes por aquele lugar existir.
Seu gosto, sua personalidade e a maneira como recebe as pessoas fazem parte disso. Permita que elas conheçam você.
Ainda estamos apenas no começo, mas estou animado para descobrir no que o HŪE vai se transformar e quem encontraremos pelo caminho.

O negócio por trás da experiência
As respostas permitem observar como uma proposta de hospitalidade começa a ganhar estrutura quando suas intenções são traduzidas em escolhas operacionais. No HŪE, quatro aspectos merecem atenção especial.
Uma identidade que orienta decisões
A identidade do HŪE não se limita ao ambiente ou à seleção de produtos. Ela orienta a maneira de receber, a escolha dos objetos da boutique, as relações com artistas e até as prioridades em momentos de restrição orçamentária.
Quando os fundadores decidiram abrir com menos produtos e adiar a festa de inauguração, preservaram o que consideravam essencial para a experiência inicial. Uma identidade consistente não depende de executar todas as ideias simultaneamente, mas de reconhecer quais escolhas sustentam aquilo que o negócio pretende representar.
Um cardápio pensado para a capacidade da operação
A proposta gastronômica contempla diferentes momentos do dia, mas evita multiplicar ingredientes sem necessidade. Ao trabalhar matérias-primas compartilhadas entre preparações, os fundadores procuram reduzir desperdícios e manter a complexidade compatível com a equipe disponível.
É uma decisão relevante para negócios que desejam ampliar ocasiões de consumo sem aumentar indiscriminadamente estoques, processos e exigências operacionais. No HŪE, a relação entre variedade e simplicidade ainda está sendo ajustada a partir do comportamento dos convidados.

A hospitalidade começa também com quem trabalha
A escolha de oferecer à barista Karina um contrato integral e uma remuneração considerada justa pelos fundadores é apresentada como parte da experiência desejada para o estabelecimento.
Esse ponto aproxima gestão de pessoas e hospitalidade. Para Tom e Frank, a maneira como os profissionais são tratados participa da qualidade das relações que a casa deseja construir. A organização das responsabilidades ajuda a manter acompanhamento, comunicação e continuidade.
O território como fonte de aprendizado
Talvez o aspecto mais revelador da entrevista seja o papel atribuído aos moradores do bairro. O HŪE nasceu com referências internacionais e uma visão criativa definida. Ainda assim, uma conversa cotidiana levou a decisões que aproximaram a proposta dos hábitos locais.
A introdução de um pequeno-almoço acessível e a revisão dos preços dos cafés tradicionais mostram que ouvir não precisa significar descaracterizar: pode significar ampliar a relevância de uma proposta sem abrir mão de sua personalidade.
O que permanece quando a novidade passa
Todo novo estabelecimento desperta expectativas. Uma inauguração mobiliza curiosidade, apresenta uma identidade e aproxima pessoas que desejam conhecer a proposta. Depois, começa outra etapa: transformar a primeira visita em uma relação capaz de se repetir.
A entrevista com Tom e Frank acontece nesse momento inicial, quando as escolhas deixam de existir apenas no planejamento e começam a ser confrontadas com o uso cotidiano do espaço.
Os fundadores ainda estudam horários, preferências, vendas e possibilidades de ajuste. Também reconhecem que a combinação entre café, gastronomia, boutique e eventos precisa encontrar seu equilíbrio econômico.
Há uma diferença entre apresentar uma proposta promissora e afirmar que ela já demonstrou sustentabilidade. No HŪE, esse processo permanece em construção.
É essa transparência que torna a conversa interessante para outros empreendedores gastronômicos. A identidade oferece direção. A operação exige método. A hospitalidade se realiza nas relações. E a continuidade depende de escolhas que façam sentido para o negócio e para as pessoas que ele deseja receber.
Em Lisboa, Tom e Frank começaram com a intenção de criar um lugar que lembrasse a casa de alguém. Os primeiros aprendizados mostram que essa sensação de pertencimento também pode nascer de atitudes concretas: oferecer tempo, acolher diferentes pessoas, prestar atenção aos detalhes e escutar quem está por perto.
O HŪE ainda tem muitos capítulos a construir. Por enquanto, sua história já apresenta uma ideia que merece circular entre profissionais do foodservice: uma identidade autoral ganha relevância quando encontra espaço na vida real das pessoas.
LÁ FORA. é um editorial internacional da Sparking Food Magazine, conduzido por Mário de Souza. Nota editorial: entrevista original em inglês, com respostas traduzidas e organizadas em português brasileiro, preservando o sentido das declarações.
HŪE
Café, wine bar e boutique de design · Lisboa
- Endereço
- Rua Luciano Cordeiro 13A · 1150-212 Lisboa · Portugal
- Contato
- info@huelisbon.com
- Site
- huelisbon.com
- @huelisbon
- Proposta
- Café, matcha, brunch, vinhos e boutique de design
- Protagonistas
- Tom e Frank
- Série
- LÁ FORA.
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